01 janeiro 2006

Nuvem Negra




a foto veio daqui



Outra vez. Havia de repetir o gesto inúmeras vezes. Talvez a vida seja isso, uma repetição enfadonha de gestos. Mexia o café da manhã com a colher habitual. Ligara a TV. Ouvia as notícias mas mais como ruído de fundo do que propriamente a prestar atenção. Ùltimamente as rotinas, quaisquer que fossem eram uma tortura.
Voltou a concentrar os esforços no mexer do leite com café, mas já nem se lembrava se tinha juntado o açucar. Provou e estava demasiado doce. Já devia ter pensado no assunto duas vezes e repetira o gesto de tirar o açiucar amarelo. Sorriu porque sentia que as coisas íam piorar e tinha de ter alguma força para as enfrentar.
Pousou a colher e bebeu lentamente. Não era hábito, mas estava só a respirar fundo.
Era 2ª feira. E como todos sabemos as 2 ª feiras são dias maus. Mas tinha a sensação de que todos os dias eram 2ª feiras.
Desceu as escadas em direcção à garagem. Olhou o carro velho. E deixou que por momentos aquele pensamento mortífero o invadisse e lhe dissesse que era um fracasso.
A porta da garagem estava avariada, como a sua vida. Sorriu. Enfrentar um dia de cada vez, ou uma hora, ou minuto e não restaria muito seria um segundo de cada vez.
Pensou na vida como um milagre, e pensou no seu azar de lhe ter calhado a si.
Riu-se.
Quando olhavam para ele achavam que era uma pessoa feliz, sem problemas. Apenas aprendera a esconder a sua dor. E esta vingativa, comera-o por dentro como um cancro que alastra até ao sufoco. Mas não tenha nenhum cancro, apenas uma saúde razoável.
A estrada para o emprego era a mesma. Conhecia os sítios perigosos e abrandava. Sorriu de novo. Se a vida era pesada, um fardo, porquê abrandar? Mas temia que no seu azar de nascer, de existir; se porventura desejasse morrer, a vida troçaria dele. Ìa deixá-lo vivo, mas tetraplégico, só para o frustrar ainda mais.
Desejara filhos e agora, sem nenhum, não arriscava! Temia que a ter essa sorte, lhe sairia na rifa um filho deficiente. E o futuro da criança seria mais uma tortura a juntar às que tinha.
Pensou que a vida fosse uma anedota e ele era a piada. Chegara à conclusão que era um inútil. E que nada havia de mais inútil que o amor não correspondido. Sim, quando o amor em vez de construir, destrói e esvazia um homem…
E a nuvem negra que o acompanhava, voltou a cobri-lo como um manto.

Sem comentários: